História de Campo Grande

HISTÓRIA DE CAMPO GRANDE ATÉ 1900

O bairro de Campo Grande localiza-se no antigo sertão carioca, no extremo oeste da Cidade do Rio de Janeiro. Comunica-se a Leste, com os bairros de Bangu e Jacarepaguá, ao Sul, com o Oceano Atlântico, a Oeste, com Santa Cruz e ao Norte, com os Municípios de Itaguaí e Nova Iguaçu. O bairro praticamente começou por volta de 1673, quando foi instituida a Freguesia de Nossa Senhora do Desterro, desmembrada da Freguesia de Irajá.

A IGREJA MATRIZ

Como em todo o lugarejo de um País essencialmente católico, a igreja assume a importância de centralizar a região. Por isso, em 29 de agosto de 1747 deu-se início à construção da Matriz em um lugar mais elevado, possibilitando que fosse vista de quase todas as partes. A igreja, no entanto, só ficou definitivamente pronta em 1808, tendo como 1º Vigário legal o padre Bernardo Ferreira de Souza.

Quatorze anos mais tarde houve uma grande tragédia. Os esforços dos fiéis foram arruinados com o incêndio que destruiu praticamente tudo. A igreja só veio a renascer das ruínas graças à atuação de outro personagem de grande expressividade em nossa história, o padre Belisário dos Santos, que através de doações populares conseguiu criar a belíssima e barroca Matriz que Campo Grande ostenta até hoje.

A velha freguesia de Campo Grande era povoada de engenhos e fazendas, todos providos de pequenas capelas ou oratórios. Diante dos quais as famílias e respectivos escravos rezavam diariamente. A maior festa que se realizava em Campo Grande tinha, naturalmente, caráter religioso. Era a Festa do Divino Espírito Santo, que reunia em novembro de 1885 houve uma intensa comemoração quando chegaram as novas imagens de Jesus, Maria e José, trazidas da Corte em trem especial, para substituir as antigas, que haviam sido danificadas ou destruídas no incêndio.

A ESTRADA DE FERRO

A estação ferroviária de Campo Grande foi construída em terrenos vendidos ao Estado por Manuel Fernandes Barata. Os trabalhos foram braçais, como registra o livro do professor Moacyr Sreder Bastos. Uma velha locomotiva chamada "Exploradora" (naqueles tempos as locomotivas tinham nomes e não números) trouxe os trilhos e dormentes, sendo a construção dirigida por Celestino Gaspar. A inauguração foi a 2 de dezembro de 1878, com a estação embandeirada à espera do primeiro trem, que chegou no horário, trazendo convidados da Corte.

A estação não ia ser construída no local em que se encontra atualmente, mas sim onde é hoje a Estrada Rio do A, 650 metros para o interior. Uma comissão presidida pelo Professor Francisco Alves da Silva Castilho dirigiu-se ao diretor da Estrada considerando que a mesma deveria ficar perto da sede do arraial.

Faz parte de nossos arquivos um magnífico trabalho elaborado pela Assessoria Cultural das Faculdades Integradas Simonsen. Trata-se de um estudo de relevo em pesquisas históricas, relativo aos Sobejos das Cartas de Sesmarias da Paróquia de Campo Grande, trazendo uma relação de uns dez requerentes, desejosos de povoar a Freguesia de Campo Grande. Os Sobejos tratados neste precioso documento descendem das primeiras Sesmarias que o Governador Martim de Sá havia doado a Lázaro Fernandes e Pero da Silva em 17 de novembro de 1603 que diz que pediram Lázaro Fernandes e Pero da Silva, no Campo Grande".

- "Saibam quanto este instrumento de Carta de Sesmaria virem, que no ano do nascimento de Nosso Ilhu, Xpo, de mil seiscentos e três anos, em os desessete dias do mês de Novembro do dito ano em esta cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro, Brasil, em as pousadas mim escrivão ao diante nomeado, apareceu Lázaro Fernandes morador nesta cidade, e me apresentou uma petição com um despacho nela o Senhor Martim de Sá, Capitão e Governador desta cidade e Capitania e Governaça deste dito Rio de Janeiro por EI-Rei Nosso Senhor. Da qual petição e despacho dela o translado é o seguinte: Pero da Silva e Lázaro Fernandes, moradores nesta cidade e suas mulheres e filhos, que lhes é necessário terras para suas lavouras e para fazerem eles e seus filhos, fazenda e não tem nenhumas no Campo Grande pediria Vossa Senhoria lhes faça mercê de lhes dar de Sesmaria no Campo Grande toda a terra que se achar entre Pedro da Costa de volta", etc...

Fontes fidedignas da História da região atestam estes documentos que outras "datas de terras" foram doadas a Manoel de Abreu Baltazar da Costa, Estevão Gomes, João Rodrigues Faleiro. Caberiam a estes senhores a obrigação de cultivar tais parcelas de terras. Caso se verificasse o descompromisso, teriam parcelas de, teriam de devolvê-las em prazo estipulado. A conclusão é óbvia para afirmar-mos que antes do ano de 1673 em Campo Grande já existiam moradores. O Governador tinha consciência de que esse critério de doação de terras com fim precípuo de cultivá-las era um meio de incrementar a agricultura, serviços, produção, transportes e criação de núcleos habitacionais de desenvolvimento urbano. Os sobejos destas Sesmarias eram requeridos pelo próprio adquirinte. Lourenço de Sampaio, por exemplo, adquiriu 6.000 braças em quadra entre o Rio Guandu e Marapendi e parcelas em Campo Grande em 16.09.1615; Manoel Corrêa e Antônio Francisco Alvarenga, 12.000 braças em quadra em Marapicú em 16.09.1619; Pedro Bentes de Souza, até o Joari, em 10.09.1629; Miguel Ferreira do Vale, terras em Guandumirim, em 13.12.1653, etc, etc.

Como constatamos todos esses povoadores e homens destemidos provam a existência em Campo Grande de outros habitantes antes mesmo de Manoel Barcelos Domingos, cabendo a este a construção da Capela em honra da mãe do Senhor nas terras de Bangu, em 1673, confessadas pelo Mons. Pizzarro em "Memórias Históricas do Rio de Janeiro". Como vemos os dados obtidos em incansáveis pesquisas nos proporcionam meios de uma visualização mais homogênea da História. Só assim podemos criar parâmetros e discernir dúvidas.

O professor e historiador, o velho Moacyr S. Bastos é o autor do livro "Fundação de Campo Grande Ainda Sem Data Definida". O professor Moacyr recebera comunicação da Torre do Tombo - Portugal - afirmando: "...não ter encontrado qualquer elemento sobre Campo Grande".Nosso objetivo maior é proporcionar aos campo-grandenses aqueles elementos indubitáveis. Temos a absoluta certeza de que Campo Grande nasceu em 17 de novembro de 1603.Não há como duvidar. Esta data é indiscutível e intransferível para dar a essa Cidade sua verdadeira situação no tempo histórico. Os Tombos das Cartas das Sesmarias do Rio de Janeiro do Arquivo Nacional do Ministério da Justiça - 1594, 1595 e 1602, 1605, pelo seu então diretor Pedro Muniz de Aragão - são fontes mais do que fidedignas de provas cabais e indiscutíveis.

É preciso certificarmo-nos de que nenhum documento pode menosprezar, estornar ou retificar o Arquivo Nacional do Ministério da Justiça. Como também, depreciar a seriedade de um dos maiores ilustres historiadores de nossos rinções, Mons. Pizzarro.

Se se certificar mais de sua importância para melhor compará-lo à inteligência e capacidade cultural preocupada pela História, não seria veleidade. Ele, Mons. Pizzarro, encerrou com muita seriedade seu trabalho. Por outro lado, proporcionou lucros a todos os historiadores sérios. Por isso é preciso dar-lhe o justo valor e importância.

Finalizando, gostaríamos de frisar que esta região (Sesmaria ou Sorte de Terras, conforme preferência de alguns) partia de Gericinó, Sapopemba, (Deodoro), segundo os Registros de Sesmarias dos cultos e zelosos padre Belisário Cardoso dos Santos do século passado, de uma família numerosa de Campo Grande, bem como as famílias de Manoel Antunes Susano, Antônio Lopes Susano, Joaquim José Susano (médico) e outros.

CESSÃO DE TERRAS FOI OFICIALIZADA POR ORDEM DE DOM JOÃO VI

Sepetiba está comemorando 424 anos, mas a fundação de seu primeiro povoado é mais recente. Segundo o historiador Sinvaldo do Nascimento Souza, Coordenador do Núcleo de Orientação e Pesquisa Histórica de Santa Cruz (Noph), o primeiro documento sobre o bairro, emitido em 1813, oficializava a cessão das terras daquela origem aos pescadores, por ordem de Dom João VI. A origem do nome, no entanto, é muito mais antiga. O lugar era chamado de Sepetiba (terra dos sapês) pelos indígenas.

Nos dois últimos séculos, Sepetiba não era considerada localidade tão pacata. Numa de suas praias, funcionava o porto da Fazenda de Santa Cruz, por onde os jesuítas escoavam sua produção agrícola. Sinvaldo conta que a carga era trazida de Santa Cruz por bondes puxados por cavalo e chegavam ao porto, que fazia a ligação entre aquelas terras, Mangaratiba e Parati. Mas a urbanização do povoamento só aconteceu depois de 1825.

- Na História do Brasil, a construção da igreja marca a criação de um povoamento e a Igreja de São Pedro, primeira no local, só foi erguida em 1895 - explica Sinvaldo.

Em suas pesquisas, no Arquivo Nacional, encontrou documentos de 1878, que fazem referências à demarcação dos lotes e das ruas, com espaço destinado à Igreja.

Soube também da existência de Clube Cultural, fundado em 1865, destinado à reunião de pessoas para leitura de jornais e revistas.

A orla marítima de Sepetiba também teve importância estratégica na preservação do domínio português no País. Depois da invasão dos franceses, através da praia de Barra de Guaratiba, em 1710, os fortins da região - construídos ainda no século XVII - foram reforçados.

ALCIR PIMENTA O DIA DO PESCADOR

Quem vem a ser, afinal, um pescador? Um predestinado sucessor de Simão Pedro, nas lidas do mar, destruído de ambições materiais, ou uma vítima indefesa do contexto social, lutando anonimamente pela sobrevivência quase impossível? Apenas um técnico de grande perícia, ou um indomável desbravador, singrando arrogantemente a imensidão marinha, cujos perigos desafia, certo de poder vencê-los? Um Simão Pedro à moderna, alterando a fé e a descrença, ou um simples produto de nossos dias?

Da realidade chocante à poesia descomprometida, um imenso vazio das lágrimas furtidas às canções de exaltação, uma lacuna a ser preenchida pela ação eficaz do Poder Público.

Não importa, pescador, onde você exerça a sua profissão. Angra dos Reis ou Parati; Ilha Grande ou Cabo Frio; Niterói ou Sepetiba; Guaratiba ou Tijuca. Esteja você em Campos ou Macaé; em Atafona ou na Baía de Guanabara, o que verdadeiramente conta é a sua participação, a sua mestria, a sua inesgotável capacidade de esperar não apenas pelo peixe, mas, principalmente, pelo apoio governamental, que poucas vezes se materializa em efetiva demonstração de apreço.

Mais que um simples "homem do mar", ou um "troço do mar", como queria o seu primeiro regulamento profissional, você se alteia intrepidamente, pela constância no trabalho e pela fé com que prepara o amanhã, lançando-se diariamente ao mar, com a mesma determinação com que o fez o velho Santiago, da incomparável narrativa de Ernest Hemingway, em O Velho e o Mar, não buscando apenas o sustento diário, mas querendo provar ainda que, malgrado as circunstâncias adversas, você continua firme e forte, dando a sua cota de contribuição e de sacrifício pelo bem da família, do Estado e da Pátria, que ama, acima de tudo. Seja claro dia ou noite escura, orientando-se pela própria natureza, ora pelo marulhar das águas junto à praia, ora pela direção do vento, cujo confronto e evita, lê, como ninguém, a mensagem das nuvens, desviando-se dos obstáculos, marchando resoluto, ao encontro não somente do peixe, mas do próprio destino, que cada vez mais se distancia na miragem do infinito.

Na humildade da sua visão do mundo, só sabe que precisa trabalhar, que deve trabalhar, que não pode fugir ao compromisso de contribuir para a grandeza nacional, fiel à tradição e à memória dos seus antepassados, consciente do papel que representa, ouvindo a mesma voz que ordenou a Pedro que lançasse a rede.

Quer como elemento de apoio para defesa da nossa independência política, em que tiveram relevante participação os pescadores de Itaparica, na Bahia, quer como núcleo de formação da nossa Marinha de Guerra, o que permitiu a João das Botas destacada atuação como Tenente da iniciante Armada Brasileira na expulsão dos portugueses contrários à nossa independência política, organizando em fotilhas grande número de barcos de pesca, fato que viria a ser registrado, mais tarde, como página brilhante de nossa história naval, estiveram presentes os nossos pescadores, em horas decisivas para a nacionalidade, o que justifica plenamente as homenagens com que os festejamos.

Anterior / Próximo