História de Campo Grande

SÍNTESE HISTÓRICA

A Paróquia de Nossa Senhora do Desterro de Campo Grande foi criada em 1673, quando Manuel de Barcelos Domingos e seus filhos fundaram uma capela, em Bangu, sob a invocação de Nossa Senhora do Desterro Mãe de Deus. No mesmo ano de 1673, a Freguesia de Campo Grande ficara separada da Freguesia de N.S. da Aparecida de Irajá e do termo de Jacarepaguá. Pelo alvará de 12 de janeiro de 1757 a Freguesia foi considerada de natureza colantina. Em 1926 pelo Decreto nº 2.479, de 11 de novembro, foi desmembrada uma grande parte do território para construir o Distrito de Realengo, cujos limites foram definidos pelo Decreto nº 3.816, de 23 de março de 1932.

De acordo com as anotações do Almanaque Leamert, de 1988 Campo Grande, no ano da Abolição da Escravatura e quase no fim do Império apresentava a seguinte situação:

A população era de aproximadamente 9.757 habitantes, sendo 7.081 livres e 2.676 escravos. A Freguesia limitava-se ao norte com as Freguesias de São João de Meriti e Marapicu, província do Rio de Janeiro; ao sul com as Freguesias de Guaratiba e Jacarepaguá; ao leste com a Freguesia de Irajá e a Oeste com o Curato da Imperial Fazenda de Santa Cruz, dividindo-se em duas povoações: Nossa Senhora do Desterro de Campo Grande (com igreja matriz) e Realengo (com capela filial). Achavam-se estabelecidos neste Quartel, Escola de Tiro e o novo Arsenal de Guerra (em construção). Além do importante e magnífico edifício da Igreja Matriz existiam mais 5 capelas, sendo: a de Realengo, de Nossa Senhora da Conceição; a de Viegas, de Nossa Senhora da Lapa; do Lameirão, de Nossa Senhora do Loreto; a de Santo Antônio, na Fazenda do Capitão Luiz Fernandes Barata e a de Sant’Ana, na Fazenda da Capoeiras, pertencentes a Marcolino da Costa Borges. Missas eram celebradas nos dias santificados às 9 horas da manhã.

Atravessava esta Freguesia o ramal de Santa Cruz, que tinha duas estações, sendo uma, a de Realengo e outra, a de Campo Grande, ficando esta distante da Igreja Matriz, 5 minutos. A Igreja Matriz de Campo Grande, que fora vítima de um incêndio em 1º de outubro de 1882, em 1888 já estava reconstruída e funcionando.

A municipalidade dividia-se em dois distritos. Participavam da administração de cada um deles, um fiscal e um suplente. Eram encarregados da Justiça quatro juízes de paz e dois escrivãos, enquanto que a Polícia ficava sob a responsabilidade de um subdelegado e três suplentes. O Serviço do Correio desdobrava-se entre cinco agências. A Instrução Pública contava com um inspetor de Distrito, quatro professores públicos, uma ajudante e o Colégio Municipal Misto Ana Estrela. Na Matriz, apenas o vigário e o sacristão, sendo este também zelador da Irmandade. A Economia do Município apoiava-se numa fábrica de carroças, no Realengo, em doze engenhos de rapadura, vinte fazendas de aguardente e quarenta e seis negociantes. Havia ainda duas hospedarias: uma em Realengo e outra em Campo Grande. Quatro médicos respondiam pelo atendimento à Municipalidade.

(Pesquisa da Divisão de Patrimônio Histórico e Artístico do Ex-Estado da Guanabara).

Período de formação de Campo Grande

A Cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro, desde sua fundação de 1 de março de 1565, por Estácio de Sá, sempre foi regida por leis e autoridades próprias, em poderes especiais para concederem sesmarias a fidalgos da Casa Real. Também eram favorecidos com tais merces os padres jesuítas. Possuiam numerosas glebas, quase metade do território do atual Município do Rio de Janeiro, ao tempo da expulsão, no ano de 1759, pelo Ministro do Rei D. José I, Marquês do Pombal.

Primeiras sesmarias doadas:

1589 - Sesmarias da Pedra - Cristóvão Monteiro e sua mulher Marquesa Ferreira, que doou metade de suas áreas (terras de Guaratiba e Guarapiranga) aos padres, vindo as mesmas a construir a Fazenda Santa Cruz.

1603 - A Estevão Gomes - não tem localização.

1650 - Região dos Coqueiros - Feliciano Cão e Souza Pereira.

1650 - Desde São João de Meriti até Campo Grande e Grumari, a Tomé Alvarenga.

1680 - Fazenda do Guercino (a mais importante) a José Pereira Sacramento.

A Sesmaria de Campo Grande, com o tempo foi sendo desmembrada em fazendas, onde cultivavam milho, a cana e onde existiam alguns engenhos.

Por determinação da Câmara de São Paulo, após tremendas lutas, foram os jesuítas expulsos daquela cidade, em 31 de julho de 1640, houve um grande levante popular contra os jesuítas, que tinham como mentores os padres Diniz Tano, Pedro de Moura, visitador geral da Companhia, padre Mateus Dias, que não conseguiram pacificar a situação, em virtude de serem Jesuítas os maiores proprietários de terras foreiras da cidade. O próprio governador Salvador Correia de Sá, com muito equilíbrio e persuasão, conseguindo acalmar os amotinados, com a retirada dos jesuítas do centro da cidade, indo muito deles para Minas Gerais, ficando a maior parte refugiada nas fazendas.

Algumas zonas foram prósperas nos séculos XVII e XVIII. Centros populosos e áreas cultivadas apareceram na "Carta Topográfica" da Capitania do Rio de Janeiro, de Manuel Vieira de Leão (1767). Entre eles a Freguesia de Nossa Senhora do Desterro de Campo Grande, destacada na segunda metade do século XVII, da Freguesia de Nossa Senhora da Apresentação de Irajá.

Outras Freguesias prósperas foram a de São Salvador do Mundo, de Guaratiba, antiga sesmarias dos padres carmelitas, a de Nossa Senhora do Marapicu e a de Santo Antônio de Jacutinga.

Até 1888, a Freguesia de São Salvador do Mundo, de Guaratiba era mais importante do que a Freguesia de Nossa Senhora do Desterro de Campo Grande. Em 1888 houve uma grande seca em Guaratiba, foram destruídos os pastos e lavouras... justamente com a seca, veio então a Lei Áurea, começando assim o declínio da Freguesia de Campo Grande.

As três mudas de café na Cidade do Rio de Janeiro, foram as seguintes:

1- Chácara do Alemão

2- Padres Capuchinhos e

3- Vitorino

Depois então, para a Fazenda do Capão do Bispo, a seguir para a Fazenda do Mendanha (Padre Couto). A Fazenda do Padre Couto foi a principal propriedade cafeeira em terras cariocas, não tanto pela qualidade de seu café, muito louvada na época, mas porque dela saíra quase todas as matrizes dos grandes cafezais fluminenses. No dizer de Basílio Magalhães, foram esses cafezais e mais os de São Gonçalo, alastraram-se e galgaram a Serra do Mendanha, invadindo as terras fluminenses e espalhando-se nelas, foram a razão de seu povoamento e a base de sua riqueza e prestígio.

A atual Igreja Matriz de Nossa Senhora do Desterro de Campo Grande, hoje inteiramente remodelada no seu interior, teve a sua origem na antiga Capela de Nossa Senhora do Desterro.

O Padre Francisco da Silveira Dias, que "regeu a Vara do Vigário Geral, desde o ano de 1660, e exercitava a Vigaria Colada de São Sebastião desde 20 de janeiro de 1665, como diz o cronista Pizarro de Araújo, caba a mais antiga iniciativa que se conhece sobre a construção da 1ª Capela de Nossa Senhora do Desterro, em terras de Campo Grande, em 1673. Os documentos datados do ano de 1670, apareceram em nome do Padre Francisco da Silveira Dias, como prelado administrador da Igreja de Candelária do Rio de Janeiro.

Por alvará de 15 de Janeiro de 1681, registrados no livro 9 dos assentamentos da Fazenda Real, fls. 180, teve a 3ª parte do ordenado de 300 mil réis, que venciam os nomeados e providos por El-Rei, desde o princípio da Administração (Memórias Históricas do Rio de Janeiro - VI, III, pág. 196 - A, de J.S.A. Pizarro de Araújo).

Coube a Manuel Barcelos Domingos (um dos primeiros moradores de Campo Grande) a construção da Capela pioneira, concretizando o plano do padre Silveira Dias, reconhecida pela Administração da Candelária, cujo novo Administrador, Padre Sebastião Barreto de Brito, que fora nomeado governador - bispado, pelo Bispo D. José de Barros Alarcão, auxiliou grandemente o Manuel Barcelos Domingos, até a conclusão das obras da primeira Capela de Campo grande.

Vejamos ainda o cronista Pizarro de Araújo, sobre a pobreza daquele primitivo templo católico: "Decadente por extremo esse tempo curtíssimo, clamava há muitos anos contra os habitantes de seu termo, para que de novo levantassem outro com decência e dignidade conveniente ao uso e ministério paroquial; mas a escolha do lugar, no centro dos limites da paróquia, onde fosse fácil ao povo os recursos dos Santos Sacramentos, obstou sempre a execução da obra, e entretanto nunca se cuidou de reparar a casa arruinada. Pareceu em outro tempo que o sítio entre os dois engenhos dos Coqueiros e Viegas eram mais aptos e cômodos para a sua fundação; e por isso, antes que o requerimento dos moradores de Campo Grande, oferecendo e obrigando as suas esmolas para o novo edifício, ordenasse a provisão de 12 de dezembro de 1720 ao Bispo a escolha do sítio suficiente para se fundar a nova Matriz, já o mesmo bispo o havia designado ali, mandando benzer certa porção de terra para o cemitério, entretanto que se ia trabalhando na obra principal, prevalecendo à execução do templo novo (talvez) por quererem desviar de si a proximidade da igreja e do Pároco (cuja vizinhança pouco lhes agrada), levantou-se a mão do trabalhador e as paredes erguidas sobre a face da terra; foram demolidas pouco a pouco pelo proprietário do terreno, que sem retribuição, se aproveitou da parede para outros edifícios da fazenda" (Pizarro - Obra Cit. Vol. III, Lib. 3ª págs. 198/199).

Todas as controvérsias e divergências citadas pelo povo em relação ao local da nova Matriz, baseavam-se no medo que tinham dos proprietários de terras, em face das duras determinações reais exageradas nas cartas régias de 2 a 12 de novembro do ano de 1710, pelas quais, "os proprietários das terras fossem obrigados a largar os terrenos preciosos às Matrizes e aos párocos, não dá para as oficinas daqueles, nas casas de vivendas destes, e pascigo (sic) de animais, que em geral não eram poucos, além da criadagem, lavouras, engenhos, etc". Neste ponto, sempre foi obrigado a intervir o próprio vice - rei do Brasil, o Governador da Cidade, fazendo cumprir as ordens severas da metrópole. Apesar de todos esses obstáculos surgidos muitos dos quais pela incompreensão e atraso do próprio povo, as capelas se multiplicaram em todo território de Campo Grande, graças, em parte, à ação sempre pacificadora e persuasiva dos antigos bispos do Rio de Janeiro, entre os quais mais popular, Frei D. Antônio do Desterro (1649-1773) que resolveu definitivamente as antigas querelas entre os proprietários de terras e o povo, em relação aos direitos da Igreja, fazendo construir a Igreja Paroquial, cumprindo deste modo as determinações régias da Provisão de 29 de agosto do ano de 1755 - Padre Bernardo Ferreira de Souza - em solenidade presidida pelo próprio Bispo, com a presença de muitas autoridades e grande massa popular, com grande festejo acompanhado de foguetório e regozijo de toda a população de Campo Grande e arredores. O segundo pároco, nomeado para substituir o padre Bernardo, foi o padre Antônio Rodrigues do Vale, "apresentado a 24 de julho de 1788, e confirmado a 15 de janeiro do ano seguinte". (Pizarro - Obra Cit. III 200).

Por acidente não bem esclarecido, e com o desespero do Padre Belisário dos Santos, a Matriz de Campo grande, foi totalmente destruída por um incêndio, no dia 1º de outubro de 1882. Reconstituída rapidamente pelo esforço dinâmico do Padre. O Governo contribuiu com 5 contos de réis, na época, correndo o restante por conta dos fiéis. O terreno foi doado pelos proprietários do lugar chamado Pau Ferro, do Juriary e Capoeiras, ficando os limites da Igreja entre as duas propriedades.

Até a proclamação da República, todos os sepultamentos eram efetuados nos cemitérios da igrejas. O antigo cemitério da igreja é hoje terreno ocupado por repartições do Estado, tais como: 3ª Divisão de Conservação e 22º Distrito de Fiscalização.

Nessa época, o número de casa do vilarejo era aproximadamente de 15, sendo a melhor a do padre Belisário dos Santos.

Campo Grande foi um dos primeiros a construir o cemitério público. Pelo Decreto 37, de 05.05.1893, o governo autorizou a compra de um terreno por 6 contos de réis, ao alfares Manuel Fernandes Barata. No cartório do Escrivão Jorge Gonçalves de Pinho, no dia 17.01.1896, foi passada a escritura. Ainda encontramos de pé a saída do cemitério, a antiga casa da Administração, inaugurada a 29/06/1896

A 2 de dezembro de 1878, era solenemente inaugurada a estação de Campo Grande, a Estrada de Ferro Central do Brasil, possibilitando assim, a comunicação mais rápida do bonito logradouro com o centro da cidade ou a "Corte" como se dizia então.

A Região ensaiava os primeiros passos na estrada do progresso, permitindo prever o extraordinário desenvolvimento que haveria de adquirir com o passar do tempo, até transformar-se numa verdadeira cidade.

Utilizava-se para o abastecimento d’água, um poço chamado Nossa Senhora do Desterro, próximo à Matriz.

Em 1880, o Matadouro da antiga Praia Formosa, hoje Praça da Bandeira, foi transferido para Santa cruz, por ter sido julgado inconveniente sua localização, devido ao crescimento da Cidade do Rio de Janeiro. Não tendo Santa Cruz água encanada, foi necessário comprar as cachoeiras do Rio da Prata e do Mendanha à D. Maria Teixeira Alves, que por elas queria 20 conto de réis. Foram vendidas por 16 contos, com a condição de abastecer Campo Grande. Nesse tempo existia duas casas comerciais e uma escola de Música, fundada por João de Almeida Costa, que possuiu a primeira Banda de Música do Vilarejo. A única escola pública era masculina. A pedido do Professor Francisco Alves Barbosa, foi inaugurada a primeira escola pública para meninas, tendo à frente D. Constância. O primeiro professor de Campo Grande foi Francisco Alves de Castilho.

Em 1894, começou a história de Bondes de Campo Grande, quando o Conselho Municipal deu concessão a uma empresa particular - Cia. de Carris Urbanos, para instalação de uma linha de tração animal, ligando Campo Grande à Guaratiba. Sua finalidade era transportar até a estação da Estrada de Ferro, capim para os burros da empresa em São Cristóvão. Os bondes foram extintos a 30 de outubro de 1967.

Em 1928, inaugurou-se o grande reservatório Vitor Konder, situado no Morro da Barata, em Campo Grande, com capacidade de 16 milhões de litros, com a finalidade de abastecer de água todas as localidades de Santa Cruz, Santíssimo Vasconcelos e Vila Militar. O Reservatório da Pedra de Guaratiba foi construído em 1912.

A denominações das principais ruas de Campo Grande, são antigas e perduram até hoje. Destacamos as seguintes: rua Augusto Vasconcelos que foi calçada em 1936 a pedido do intendente Coronel Honório dos Santos Pimentel; rua Coronel Agostinho que se estende até a estrada de ferro. Do lado oposto da estrada de Ferro, fica a rua Barcelos Domingos, que continua num caminho, tomando a direção da rua Lucília e ia terminar numa capoeira ( Hoje bairro das Capoeiras). Esse caminho transformou-se na rua Campo Grande. As ruas Barcelos Domingos, Coronel Agostinho, Augusto Vasconcelos e muitas outras receberam nomes em homenagens aos filhos do lugar.

Mudou muito Campo Grande, desde aqueles distantes dias em que a Fazenda do Viegas despertava a atenção dos visitantes estrangeiros que demandavam à Imperial Fazenda de Santa Cruz e em que D. Pedro I gostava de apreciar os extensos campos. Desde aqueles dias perdidos em que Freire Allemão estudava em sua velha casa à luz de um candoeiro em que se plantava café no Mendanha, em que era intensa a produção rural.

Fazendas

Fazenda do Suzano - Ao   cidadão Miguel Antunes Suzano poderoso senhor do engenho, dos fins, do século XVIII e princípios da história do século passado, deve também Campo Grande uma das mais belas páginas da história de seu desbravamento e progresso. Era o velho Suzano, um poderoso patriarca, chefe de numerosa família e suas terras, recebidas por sesmaria, já apareceu em documentos datados de 1722, com o nome de "Fazenda Miguel Antunes Suzano". Não sendo tão extensa quanto a "Fazenda dos Jesuítas"’, era contudo muito rica, quase toda coberta de canaviais, cafezais, criação de gado, com engenhos, numerosas casas de auxiliares e agregados brancos, além da escravaria, que trabalhava nos campos e na lavoura às ordens de vigilantes feitores. A essa família e seus descendentes deve Campo Grande parte de seu importante papel na economia rural, nos prósperos tempos do Brasil Império, quando o Município Neutro exportava grande quantidade de açúcar para Portugal, conforme lemos em Manuel Pereira da Silva na sua famosa História da Fundação do Império Brasileiro (Rio de Janeiro, 1865) Vol. II, Pags. 81 e 82.

Não devemos esquecer que o velho Suzano, já em avançada idade, cumprindo o seu velho desejo, pela provisão de março do ano de 1743, mandou construir a capela de Nossa Senhora da Conceição, na Fazenda do Lameirão (Pizarro, "Memórias Históricas do Rio de Janeiro". Rio, 1945 Vol. III, Pág. 201.

O incansável erudito pesquisador Vieira Fazenda, no seu excelente trabalho "Limites entre o Estado do Rio de Janeiro e o Distrito Federal" (Rev. Inst. Histórico, Tomo 88, Vol. 142 Págs. 194 e 253) apresenta os nomes de numerosos proprietários de terras, desde os primeiros tempos coloniais, nas terras fronteiras de Campo Grande com o Estado do Rio de Janeiro.

Era o fazendeiro Antônio França, o primeiro dono da Fazenda Grande, que passou às mãos de Jorge de Souza Coutinho, no ano de 1642 - diz Vieira Fazenda - Souza e sua mulher Maria Calhegos, faziam cessão dessas terras, Guguipiri, aos dois filhos, Inácio e Francisco. Data daí a divisão da Fazenda Grande. Tudo isto consta de documento do arquivo público, quando em 1813, Amaro José Vieira, proprietário da metade das terras compradas a José Pereira Dias, embargava a concessão de mangues fronteiros à sua propriedade legítima (Pg. 195 e 196).

Cita ainda Vieira Fazenda, os seguintes cidadãos que obtiveram terras para a formação de lavouras, na freguesia de Campo Grande e que mais tarde se transformaram em grandes sítios e fazendas: Estevão Gomes, sesmaria em 1603, João Rodrigues Faleiro, ainda no ano de 1650, Faliciano Coelho Cão , sesmaria datada de 1650, e Pedro de Souza Pereira com a mesma data , associados, ao que parece, na formação da "Fazenda dos Coqueiros". Ainda em 1650, obteve sesmaria em terras limítrofes com Meriti, o cidadão Tomé Correa de Alvarenga, que se tornou o tronco da poderosa família Alvarenga, tão conhecida e respeitada na vida econômica e política de Campo Grande, em 1680 as terras que formaram mais tarde a Fazenda do Guercino, foram dadas em sesmaria, ao cidadão José Pereira Sarmento. Este cidadão desbravou suas terras, plantou cana de açúcar, construiu riquíssimo patrimônio rural, passando mais tarde aos seus descendentes, até que em 1907, foi a referida propriedade adquirida pelo Governo Federal aos herdeiros do latifundiário Alexandre Pires Coelho, para formação dos campos de treinamento e manobras do exército.

Procurando dar melhores explicações sobre os troncos da família Alvarenga, de Campo Grande, diz Vieira Fazenda: "Francisco Frazão, casado com D. Maria Bárbara, era filho de Antônio Alvarenga e viúva do Capitão Manoel Corrêa, falecido em 8 de janeiro de 1644, deixando por testamenteiros o genro, Pedro Souza Pereira, o irmão Duarte Corrêa Vasqueanos, casado com Maria Borges e falecido em 23 de maio de 1650 , e, finalmente, o filho Tomé Corrêa. Este último casado com D. Maria Esposa, morreu depois de ter sido por várias vezes governador do Rio de Janeiro, em 7 de setembro de 1675, e em verba testamentária ordenou que fosse seu corpo, sepultado na entrada da porta principal da Igreja da Santa Casa de Misericórdia, da qual fora, por muitos, provedor".

Num minucioso Relatório apresentado no ano de 1777, pelo mestre de Campo, Inácio de Andrade Souto Rondon, ao vice-rei Marquês de Lavradio (D. Luiz de Almeida Portugal Soares Alarcão Eça Melo Silva Mascarenhas 3º vice-rei, com sede no Rio de Janeiro, de 1769 a 1779), Campo Grande apresenta a seguinte estatística de muito valor, para avaliarmos o poder de sua economia rural: 1ª Fazenda de Bangu, do Coronel Gregório de Morães Castro Pimentel, com 107 escravos, fazendo por ano 40 caixas de açúcar e 22 pipas de aguardente; 2ª do Viegas, do Manoel Freire Ribeiro, 53 escravos fazendo 22 caixas e 10 pipas; 3ª de Iscari, de Victorino Rodrigues Rosas, 87 escravos fazendo uma caixa e meia de pipa; 4ª do Cabuçu de Ursulana Martins, 87 escravos, fazendo 20 caixas e 9 pipas; 5ª de Inhoaiba. Do Capitão Antônio Antunes, com 14 escravos e faz atualmente uma caixa; 6ª Guandu de Francisco da Silva Sena, 35 escravos, 12 caixas e 10 pipas; 7ª Mendanha, do Capitão Francisco Caetano de Oliveira Braga, 30 escravos, 10 caixas e 8 pipas; 8ª da Capoeira de D. Ana de Jesus, 35 escravos, 25 caixas e 20 pipas; 9ª do Lameirão de D. Mariana de Souza e mais herdeiros, 23 escravos, 18 caixas e 10 pipas; 10ª dos Coqueiros, de José Antunes Susano, 32 escravos, 25 caixas e 7 pipas. (Dec. Public. Vieira Fazenda, obra cit. Pág. 241)

"Fazenda do Mendanha" Cujo nome se deve ao primeiro proprietário e poderoso senhor de escravos e grande produtor de açúcar e café, Luiz Vieira Mendanha, passou por mãos sucessivas até ser comprada pelo Padre Antônio Couto da Fonseca , foi o grande protetor do sábio Freire Allemão, que iniciou sua vida como sacristão, na capela da Fazenda do Mendanha, onde aprendeu os primeiros rudimentos de latim com o Padre Couto.

O Cientista Freire Allemão

Filho Ilustre de Campo Grande

Pode orgulhar-se Campo Grande de ter dado ao Brasil, um dos maiores cientistas nascido de nossa raça através de todos os tempos. Foi o sábio Francisco Freire Allemão, conhecido e respeitado mundialmente, nascido na "Fazenda do Mendanha", no dia 24 de junho de 1797, e depois de percorrer quase todo o Brasil em missões científicas , vivendo no torvelinho de uma vida por vezes agitada. Por feliz coincidência do destino, em avançada idade, depois de desempenhar as mais elevadas funções públicas, voltou ao seu velho sítio do Mendanha, herança de seus pais João Freire Allemão e D. Feliciana Angélida do Espírito Santo, e lá passou seus últimos anos de vida, falecendo deste modo no mesmo local de seu nascimento.

Em notável trabalho biográfico, o ilustre filho de Campo Grande, apresentado pelo insigne historiador José Saldanha da Gama, ao Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, no ano de 1875, diz o distinto biógrafo, "O sábio, cuja vida de glórias queremos hoje imortalizar sob a forma indestrutível ao tempo, ao espaço, aos séculos e a mão do homem até as mais remotas gerações, nasceu a 24 de junho de 1797, e desceu à terra do esquecimento aos 11 de novembro de 1874"( Revista do Instituto Histórico Geográfico Brasileiro – Tomo 36, II Parte, Rio, 1875, Pág. 51 – 126) .

Após formar-se médico pela academia Médico Cirúrgico completou seus estudos na Santa Casa, em Paris. Voltando foi professor da Academia Militar e Diretor do Museu Nacional.

Presidente duas vezes da Academia Imperial de Medicina e fundador da Sociedade Velosiana para estudos de botânica.

Membro do Instituto Histórico e Geográfico. Autor de dezenas de publicações e desenhos sobre plantas brasileiras, descrevendo muitas plantas novas.

Contribuiu para a notável obra de raridade botânica de Von Martius – Minerva Brasiliensis, escrevendo em Latim.

Integrou a comissão científica que fez a exploração do Ceará (Comissão das Borboletas).

Foi médico do Paço Imperador, médico pessoal de D. Pedro II, privando da biblioteca do Imperador.

Recebeu condecorações de Oficial da Ordem das Rosas e Cavaleiro de Cristo.

Foi comissionado para ir à Itália buscar Teresa Cristina, noiva do Imperador D. Pedro II.

"O Barão de Campo Grande"

Amigo e Patrono de Campo Grande

Não podemos deixar de consignar nesse trabalho, o relevante papel do ilustre magistrado e político carioca, Dr. Francisco Gomes de Campos, em relação ao muito que fez em favor da terra carioca e mui especialmente por Campo Grande, de modo a ser agraciado pelo Imperador D. Pedro II, no ano de 1861, com o título de "Barão de Campo Grande".

Nasceu Francisco Gomes de Campos, nesta cidade do Rio de Janeiro, no ano de 1788, e desde cedo foi encaminhado pelo seu pai a estudar nas célebres aulas-régias aqui existente ao tempo do Príncipe D. João VI, tendo como professor abalizados, mestre portugueses, que acompanharam a Família Real, que aqui aportou em 1808. No ano de 1814, o jovem carioca embarcou para Lisboa, matriculando-se imediatamente na Universidade de Coimbra, onde com raro brilhantismo, concluiu o curso de leis (como se dizia naquele tempo), bacharelando-se ao fim de cinco aos, em 1819. De regresso ao Rio de Janeiro, militou-se alguns anos na justiça notabilizando-se por suas aptidões e vasta cultura, o que lhe valeu a nomeação para o alto cargo de Juiz de Fora de Cível, na Cidade do Rio de Janeiro, no ano de 1828, por decreto do Imperador D. Pedro I, seu amigo e grande admirador. Dois anos depois, o próprio Imperador achou por bem promover o Dr. Gomes de Campos ao alto posto de Ouvidor da Comarca. Tão popular e benquisto tornou o ilustre magistrado, que as instâncias de seus amigos entrou na política ativa do império em 1833 em meio às grandes lutas da Regência sendo eleito para Câmara Municipal. Naquele mesmo ano de 1833, é imediatamente escolhido por seus pares para o cargo de Presidente, posto que exerceu com mais elevado espírito por quatro anos sucessivos até 1837, por reeleição anual, por unanimidade, tais reconhecidas qualidades de homem público que soube tão dignamente desempenhar-se de suas elevada funções em todos os postos que ocupava. Na verdade, os que conhecem a luminosa trajetória do Dr. Gomes de Campos, sabem muito bem, que ele não se elevava a custa dos cargos e funções que lhe eram confiados, mas todos os encargos que por ele desempenhados é que recebiam o relevo e se dignificavam com as excelências de sua dignidade e as primorosas qualidades de seu formoso caráter.

Em 1833 foi Gomes eleito deputado geral à Assembleia Constituinte, exercendo o mandato até 1843, quando foi escolhido pelo jovem Imperador D. Pedro II, para o encargo do Desembargador da Relação da Corte, e três anos mais tarde, procurador da Coroa e da Fazenda Real, tornando-se dos mais fiéis Conselheiros do Imperador.

Eis, em poucas linhas, um dos nomes distintos da primeira metade do século passado, grande amigo e benfeitor de Campo Grande ao qual prestou inestimável serviços a que teve como recompensa, o título de "Barão de Campo Grande", já em idade avançada.

Padre Belisário Cardoso dos Santos

Nasceu em Campo Grande em 1821 e faleceu em 1891.

Recebendo ordens sacras, foi nomeado vigário de Campo Grande, onde permaneceu de 1846 a 1891 ( Matriz de N. .do Desterro).

Em 1822, a Igreja foi destruída por um incêndio, restando apenas as paredes. O Padre Belisário, com recursos próprios e com a ajuda de fazendeiros e outras pessoas de Campo Grande, reconstruiu a Matriz. Foi ele que edificou a casa de residência do Vigário, a qual serve de sede ao Colégio Belisário dos Santos.

Para renda da Igreja, construiu as chamadas "Casas de Nossa Senhora", que já não existem mais. Situavam-se no terreno ao lado da residência, com frente para a praça Matriz.

Foi enterrado no cemitério que ficava fronteiro à Igreja (onde hoje se acham as repartições do Estado). O túmulo era de mármore e tinha dados relativos ao nascimento e à morte. Vendido o terreno do cemitério à antiga prefeitura do Distrito Federal, foram os restos levados para a Matriz. Onde se encontram agora.

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