A Casa do Morro do Chá

Naqueles tempos nós morávamos no Morro do Chá. Era uma casinha simples, que ficava na rua dos Bambus. Havia uma cerca viva, e um portão de madeira que nunca se fechava. O quintal, todo cercado por brincos-de-princesa em tom carmim, servia de esconderijo nas horas do lazer. Os mourões, repletos de orifícios, e habitualmente freqüentados por mangangás, mas pareciam vergas de chaminés desativadas pelo tempo. Acho que era lá, que os temíveis besouros
pretos com a barriga amarela, faziam seus ninhos. A ferroada do mangangá, centenas de vezes mais dolorida do que a das abelhas-cachorro, constituía uma preocupação à parte.
 

Eram tempos difíceis. A minha família, que chegara de Campina Grande, viveu também a saga do nomadismo. De início, fomos morar na Vila Santa Eugênia. Ocupamos um sítio cedido por amigos do meu pai, nas proximidades da Venda de Varanda. Dali nos despedimos dos imensos laranjais e nos alojamos no Morro do Chá, para, em seguida, morar na antiga rua Barão de Lucena, de onde nos transferimos para a rua General Olimpio onde, em curta passagem do tempo, chegamos a residir em quatro endereços diferentes. A família numerosa, o aluguel que subia, e a necessidade de um pouco mais de conforto e proximidade com o centro do bairro, nos obrigava a transitar como ciganos.
 

Do Morro do Chá são vagas as lembranças. A escolinha da Dona Neném supriu a lacuna aberta com a saída da Arthur Thiré. Dona Neném dava aulas em sua própria casa. Não havia, como na escola agrícola, uniformes, salas, refeitório, horta e nem divisão de turmas. Todos nos sentávamos, juntos, em compridos bancos de madeira corrida, em volta de uma enorme mesa de tábuas fixadas sobre cavaletes. Tudo parecia muito maior do que era. Desde o filtro de barro, muito requisitado pelos alunos nos dias mais quentes do verão, até o quadro-negro, que causava calafrios, quando éramos indicados pela professora para fazer os exercícios. Também parecia infindável, o tempo que passávamos ali na escola da Dona Neném aguardando a hora do lanche e da volta para casa. De manhã cedinho, eu recebia a incumbência para comprar pão. Não havia padarias no Morro do Chá. Somente na Felipe Cardoso ou na rua da igreja. Royal, Ciraudo ou Oriente. Meu pai comprava com um caderninho cedido pela Panificadora Ciraudo.Ali se faziam anotações das compras diárias, que eram pagas no final de cada mês. Da rua dos Bambus até a rua Lopes de Moura fazíamos uma verdadeira viagem.

Em frente ao quartel, depois de passar batido pela casa mal-assombrada da Maria do buraco, ficava horas-e-horas observando o vai-e-vem dos soldados em marche-marche. O tempo passava, o pão murchava, e eu ali extasiado diante daqueles recrutas com seus enormes fuzis Mauzer 1908. Em casa, aguardavam-me as reprimendas. O castigo mais comum era permanecer sentado no chão catando toneladas e mais toneladas de feijão. Aí de mim se deixasse passar uma única pedrinha no meio daqueles grãos pretos. Naqueles momentos de desolação, quando não recebia a solidariedade da minha antiga babá, a ?Lud? , como eu a chamava carinhosamente, arrependia-me de todas aquelas aventuras de menino. Prometia para mim mesmo que não ficaria mais contemplando as guloseimas expostas nos balcões da Royal, e nem perderia mais tempo observando os soldados do Corpo de Bombeiros, escalando a enorme torre vermelha, pendurados em corda-bamba. Logo-logo o castigo seria esquecido, e novas peripécias infantis determinariam o curso inesperado dos acontecimentos.

Sinvaldo do Nascimento Souza