A DESAFRONTA DO IMPERADOR

                     No início do mês de setembro de 1822, quando conheceu e manteve os primeiros encontros amorosos com dona Domitila de Castro Canto e Melo (futura Marquesa de Santos), dom Pedro já era casado com a Arquiduquesa austríaca, dona Maria Leopoldina de Habsburgo, mas ainda não era Imperador do Brasil e sim Príncipe Regente. Foi na própria viagem, iniciada no final de agosto daquele ano, partindo da Fazenda de Santa Cruz, no Rio de Janeiro em direção ao interior de São Paulo, que ocorreu a separação política do Brasil,  de Portugal, registrada pela Historiografia oficial como "Proclamação da Independência", cuja iconografia se tornou célebre com o quadro intitulado "Grito do Ipiranga", na imagem idealizada pelo pintor Pedro Américo, aluno de Jean Baptiste Debret.

                     O encontro de dom Dom Pedro com dona Domitila foi por acaso. Ela passeava na cadeirinha de arruar, carregada por dois escravos, enquanto o Príncipe Regente cumpria o seu roteiro acompanhado por um piquete de cavalaria que fazia a Guarda de Honra. A partir daí dom Pedro ficou completamente enrabichado pela filha de João de Castro Canto e Melo, que também já era casada com o alferes Felício Pinto Coelho de Mendonça,  embora separada do mesmo, enquanto aguardava o desfecho do processo de divórcio.

                     Graças à influência do Imperador Dom Pedro I tudo aconteceu de forma rápida. No dia 5 de março de 1824, o monsenhor Francisco Corrêa Vidigal assinava o reconhecimento de sevícias, tendo como provas esmagadoras contra Felício, duas facadas na esposa. A sentença a favor da queixosa foi lavrada pelo doutor José Caetano Ferreira de Aguiar.

                     Felício, que já se encontrava na Província do Rio de Janeiro, foi nomeado administrador da Feitoria do Periperi, integrada à jurisdição da Fazenda Imperial de Santa Cruz. Era uma espécie de "compensação". Um "cala a boca" que recebia a mando do Imperador para esquecer completamente a sua ex-mulher e, inclusive, renunciar o pátrio poder sobre os filhos.

                     Tudo parecia estar nos conformes, pois além de ter o soldo substancialmente aumentado, o novo funcionário da Fazenda Imperial de Santa Cruz era mimoseado com os títulos de Cavaleiro da Ordem de Cristo, Fidalgo Cavaleiro da Casa de sua majestade Imperial, ajudante do batalhão de Infantaria do Pilar e Serra e Administrador da Imperial Feitoria do Periperi.

                     Na verdade, o alferes Felício de Mendonça queria bem mais. Primeiro ele rogou ao Imperador que o nomeasse seu criado. Em seguida, deixando qualquer vergonha de lado, escreveu à antiga esposa, pedindo que intercedesse a seu favor junto ao Imperador, para que o promovesse ao posto de sargento mór (major) do corpo  que servia no Pilar e Serra. Não sendo atendido nas suas pretensões, nem pela ex-mulher e muito menos pelo Imperador, Felício voltou a destilar o seu ódio contra a já poderosa dona Domitila de Castro Canto e Melo, que dominava o coração de Dom Pedro I.

                     Chegando ao conhecimento do Imperador, por intermédio do Superintendente Geral da Fazenda Imperial de Santa Cruz, Boaventura Delfin Pereira, cunhado de dona Domitila, que o alferes Felício
reacendia seu ódio com novas ameaças à sua ex-mulher, a reação de Dom Pedro foi  imediata.

                     O historiador Alberto Rangel, no seu livro intitulado "Dom Pedro Primeiro e a Marquesa de Santos",nos fala da fúria do Imperador. "Em noite diluviana, o Imperador montado a cavalo, com um companheiro, saltara as doze léguas que o separavam da Feitoria do Periperi, na Fazenda Imperial de Santa Cruz. Aqui chegando, esbofeteara o Administrador da Feitoria, entre grosseiras e vexaminosas acusações, obrigando-o a assinar uma declaração em que se empenhava a palavra de não mais caluniar e nem mesmo se ocupar de dona Domitila, sob pena de uma coça."

                     Depois da inesperada visita noturna do Imperador ao Administrador da Feitoria do Periperi, não se ouviu mais falar de novas manifestações feitas pelo alferes Felício Pinto Coelho de Mendonça.

                     Enquanto isso, a marquesa de Santos ia conseguindo tudo o que pleiteava do Imperador: nomeações, promoção dos parentes, reativação das pessoas das suas relações e tantas outras mordomias, como as conseguidas para o coronel Boaventura Delfim Pereira, casado com a sua irmã, que acumulou o importante cargo de Superintendente Geral da Fazenda de Santa Cruz, com as funções de administrador das Imperiais Quintas e Fazendas, com um ordenado de um conto de réis anuais e poderes plenos, apresentando as suas contas para    que  o Tesouro fosse saldando  sem nenhum tipo de contestação, como determinavam os decretos assinados pelo próprio Imperador e reiterados para que não pairasse nenhuma dúvida.

sinvaldo.souza@infolink.com.br

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